quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Fragmentos de um Eu Lírico Perdido


Fragmentos de um Eu Lírico Perdido

Há tantas metáforas para a vida. Será que as pessoas se importariam com mais algumas? Às vezes me pego pensando que a vida seja mesmo como um livro que você se depara com aquela gravura, quando por acaso um vento bate e levanta páginas aleatoriamente até aquele ponto... Esquecido. Às vezes a vida parece como quando você está no carro sem pendrive e busca sintonizar alguma rádio e, por acaso, se depara com aquela música... Há tanto esquecida. É como naqueles dias nublados em que você vira uma esquina que você não passava há anos e, de repente, sente várias coisas que nem lembrava que existiam.

Há muitas histórias abaixo das sombras dos postes, a curva de cada esquina, nos traços de cada porta. É aquela marca de iniciais gravas com estilete na carteira de uma sala de aula. É aquele diário velho, surrado e esquecido no fundo de uma gaveta. É aquela sua blusa que você nunca mais via... Aquela borrada fotografia. São tantas coisas, todas são histórias. Nós somos histórias. Nós nos esquecemos das histórias, nós esquecemos de nós. Acho que em meio aos dias e dias do cotidiano eu fui esquecendo de contar histórias e, entre os dias e dias, eu fui esquecendo de mim. Não fui contando a mim mesmo, não fui tocando a mim mesmo, fui me perdendo de mim.


Há semanas eu procuro meu eu lírico, aquele das poesias livres e leves, sonhadoras. De alguma maneira, sinto que eu, eu mesmo, estou aqui. Em alguma entrelinha deste texto eu posso estar obscurecido pelo cansaço da madrugada e eu não me sinta tão bem representado, não me reconheça aqui. Bom, mas o primeiro passo é este aqui: sentar e escrever e reescrever esta história, este eu lírico perdido, esquecido por aí. Esquecido entre uma velha e uma nova série de TV, entre uma música nostálgica ou aquela fotografia envergonhada. Esquecido em algum sorriso ou sorvete de limão que deixei de tomar. Esquecido nas coisas que eu faço, que me fazem eu, ser eu, eu lírico esquecido, eu lírico encontrado.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sommelier


Sommelier

Somos pele e orgasmos
Se desfazendo em gemidos
Somos suor e mamilos
Leves, soltos, famintos

Somos solo de guitarra
De baixo e suave
Somos carne e batom
Somos tom sobre tom

Somos lábios e pelos
Descaminhos graves
Somos mel e amargo
Desvios e desastre

Somos as sombras em
Meia luz, meio abajur
Somos tempero e arte
Temperatura e sonhos (nus)

Somos conchinha
E colchete
Somos passo
E compasso

Somos ruins
Somos bons
Somos agua e vinagre
Cor de pele, cor de carne

Somos o tremido da língua
Somos ruído da cama
Somos lençol em campanha
Somo só, somos sons!

Do vinho a taça...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O amor pós-convencional em Cazuza

O amor pós-convencional em Cazuza


Não é incomum as pessoas se escandalizarem frente a crueza de algumas baladas de Cazuza. Podemos inclusive pensar que não há romantismo em suas letras, posto que algumas explicitam relacionamentos infiéis ou simplesmente pelo fato de sexualizar temas que são tratados com maior lirismo.

Nesta manhã de segunda -feira, a música "o nosso amor a gente inventa" não saiu da minha cabeça até que eu a ouvisse mais de dez vezes. Após suas discretas repetições, cheguei a conclusão que Cazuza é um ícone do romantismo pós-convencional. Cazuza não é um John do romantismo lírico, não é um trovador solitário com Renato. Cazuza é um poeta do dia a dia, dos detalhes da vida.

Por exemplo, enquanto Renato se pergunta "quem inventou o amor?", Cazuza tem a resposta na ponta da língua: somos nós! Porém, a ambigüidade, possivelmente, proposital nos faz crer que o inventando é algo de mentira, irreal, falso, impuro. Porém, minha interpretação desta manhã é que esta talvez seja uma das músicas mais românticas de Cazuza, uma das mais sinceras...

Quem nunca quis odiar seus amores, quis desistir de um relacionamento, culpou a falta de amor (quem inventou?)... Acontece que amor é algo que se faz, inclusive na cama, de modo mais humano e carnal possível. Pra mim, este amor inventado é a tentativa de reconstruir algo bom para os dois membros do casal, ou criar algo novo, algo que os mantenha unidos. É afirmar que o amor não é algo dado, divino e maravilhoso, mas é algo feito, construído, humano, suado e trabalhoso!

Acho que o modo como as pessoas se escandalizam com as letras de Cazuza é que há muita sinceridade nelas, para o bem e para o mal. Afinal, o mal é bom e o bem cruel. Ou seja, defendo aqui que os melhores amores não são os líricos, os apaixonados, mas os pós-convencionais, os que fogem as regras, os verdadeiros, os amores que se encontra de verdade em qualquer lugar.

"O nosso amor a gente inventa" me parece um grito de liberdade não desistir de um relacionamento concreto, em que às vezes enjoamos um ao outro e que, mesmo assim, não é porque acabou o romantismo vitoriano que temos que nos deixar, mas podemos inventar!

E eu adoro um amor inventado!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Quase uma Definição


Quase uma Definição

Se há alguém que entende de descaminhos, ah... Este alguém sou eu! Quase nunca falo de mim, quase não digo o que sinto, quase não digo o que penso, quase não digo que sou, mas, de alguma forma, algo me escapa às minhas pretensões de sólida solidez. Algo aparece de mim que eu nem mesmo sei. Estes descaminho de mim mesmo...

Devem ser muito loucos aqueles que me acompanham, que me acompanham de algum modo. Não há muitas constâncias em mim a que se possa se apegar. Há derivações, há rupturas, há prosa, há poesia, há até literatura científica. Sou um poço profundo no raso do céu... Sou o paradoxo do encontro do fim e do começo, eu sou entre... Qualquer coisa que faça sentido! Eu sou sentir, eu sou mentir, estou perdido, estou/sou todos sentidos!

Sou morada de ilusões, sou morada de desilusões. Sou morada de muitos mundos. Sou morada de mundos fictícios. Sou morada da esquina, da cantina. Sou o que se pode imaginar se quiser uma brigo, amigo, namorar! Sou o que sou agora, fui antes, durante e depois. Eu sou o amor romântico, sou sexo a dois. Como eu disse, sou descaminhos e desvios proibidos. Eu sou a lenda que eu recrio em cada rito. Eu sou a fogueira que queima o capital. Eu sou a luxuria, sou a cobiça, sou o que sou e não sou mal. Eu sou, como eu disse, poesia, prosa e outros devaneios, meio a meio, meio mortal.

Mas se você quer mesmo que eu afirme algo além de derivar versos bem concretos e além, é só reparar na cara boca boba que faço quando um sorriso se abre pra mim no tempo-espaço de segundos, de centímetros, do perímetro do beijo e nada mais. 

Eu sou e apenas sou o fruto proibido de histórias e libido. Sou o produto fabricado no infinito possível ser. Eu sou e todo sou seu amor, amante, marido, seja o que for. Mas o que realmente sou é o que te deixo ver, pois o que sou que sou e sou agora mesmo que restou... 

Sou apenas mais um homem que vos fala em metáforas, mas o que queria simplesmente era que você sentisse minha presença crucial do agora! Pelos bares, pelas ruas, luas e lugares, qualquer canto que sonhares e que podemos nos encontrar. Sou aquilo feito na presentificação do momento, sou o sorriso sincero que te dou, sou o abraço acalorado que sobrou, sou a ultima dose do copo cheio de amor, sou aquele que estará lá, presente, face a face, basta, se você quiser, procurar!

sábado, 4 de julho de 2015

Sobre a Escrita

Sobre a Escrita

O ato da escrita tem se tornado distante, difícil e, por vezes, vazio. Talvez por falta de tempo livre para refletir sobre a vida, para sentir a vida em todas suas diversas formas ou quem sabe o acumulo de diversas emoções inomináveis ao longo de dias tenha tornado a possibilidade de escrita um desafio maior do que antes. A questão é que tem sido difícil encontrar tempo para ir de encontro a mim mesmo, ficar só, sentir-se inteiramente só... Para poder sentir, pensar, refletir e, então, escrever.

Meu processo de escrita é como me tornar um andarilho, um viajante solitário, pegar minhas coisas e por o pé na estra em busca de novos horizontes. As minhas experiências pessoais seriam a minha bagagem e o caminho seria o próprio ato da escrita. Cada novo passo, cada novo verso, marcando a folha vazia com diversas letras, com diversas marcas no caminho que vou seguindo.

Pra mim, escrever é uma oportunidade de estar comigo mesmo e poder dialogar comigo mesmo sobre as coisas que trago no peito, que mexem comigo, que me comovem. Nesta vida frenética, tenho sentido o quanto é difícil nos permitirmos sentar e estarmos conectados apenas com nós mesmos. Muitas tecnologias tem nos deixado ligados no mundo lá fora 24 horas. Escrever é a forma pela qual eu acho de me encontrar no meu mundo, de me desligar dos outros mundos, de estar presente, de estar inteiro em algo.

Na escrita posso dar vazão a fantasia, a loucura, ao delírio que reside em mim. É quando eu materializo os sonhos, devaneios, posso transformar em matéria real aquilo que é intangível, aquilo que me pertence, posso operar ritos e misticismo, a escrita como forma de magia.

Espero, aos poucos, retomar a estrada e seguir o meu caminho, mesmo que o mundo gire suas engrenagens loucas do dever e ordem, das responsabilidades, me permitirei estar aqui para ser livre, para voar, fazer magia, sonhar.

domingo, 17 de maio de 2015

Desmensuras


Desmensuras

Durante muito tempo eu fugi
Havia sombras e sobras
Eu não queria estar ali
Eu só queria ir embora

Mas para todo lado, espelhos
Em minha ânsia de mudar
De nome, cidade, estado, sonhar
Eu estava lá todo tempo

Fugi nos livros, nos discos
Pensamentos soltos sobre outros
Poesias fingidas ou roubadas
Mas era onde eu estava

E, então, me redescobri
E então eu queria estar ali
Ser quem sou e me tornei outrora
Ser quem sou e me tornei agora

Reencontrei velhos versos
Medos tolos e seus inversos
Vi, vivi e revivi memorias
Vi, vivi e revivi historias

E então permaneço aqui
Aqui e agora, este ser que meço
Estou em cada pedaço concreto

Do abstrato ser eu que verso

sexta-feira, 27 de março de 2015

De Peito Aberto


De Peito Aberto

Eu nunca estive só
Nunca me senti tão só
Realmente só
Só como estou agora

Eu nunca estive frágil
Tão frágil e quebrado
Realmente humilhado
Apenas humanos, nunca estive

Eu sempre fui muito mais
Muitos conceitos
Muitos deleites
Eu já fui multidões

Mas hoje, apenas hoje?
Eu estou só, somente só
Sozinho, nem com meus pensamentos
Estes são veneno, são álcool

Afinal, eu nunca estive só
Nunca me senti tão só
Realmente só
Só como estou agora