domingo, 1 de outubro de 2017

Sonho ou Delírio?


Sonho ou Delírio?

Há uma ilusão quando buscamos definir a vida como algo. “A vida é bela”, “A vida é esforço”, “A vida é sofrer” são trilhas obscuras sobre o inimaginável futuro que tentamos tatear. Quando tentamos definir o que a vida é, não estamos tentando dizer algo sobre o que foi vivido, estamos tentando, sim, é espantar os medos do “incontrolável”, estamos tentando definir o futuro.

Por trás de cada afirmação, há em segredo, uma regra. Somos entupidos de regras sobre tudo na vida, desde como devemos gastar nosso dinheiro até como devemos sorrir. Quase não há espaço para experimentar o inesperável. Quando algo inesperável é prazeroso, aceitamos. Quando algo inesperado é desastroso, nos desesperamos. A felicidade nos inebria, confunde. A tristeza nos deixa atentos, desperta nossa atenção para algo que pode estar errado. Friso o “pode estar errado” porque certo e errado não são nada mais nada menos que adjetivos que damos a eventos no mundo tentando captura-los e impingir uma certa ordem. Bom, quando algo desprazeroso ocorre somos tomados de espanto. Fomos criados em um mundo que tenta negar a todo custo à dor. Não estou, no entanto, advogando em prol do sofrimento. Longe de mim dizer que viver é sofrer, mas viver não é só prazer...

Não entendo o Zen, nunca li nada sobre o Tao. No entanto, acho que isso só me traria arrogância e orgulho. Tenho algumas experiências soltas e umas imaginações férteis. Sinto falta de determinadas formas de ser e viver que me traziam paz, tenho encontrado outras formas de ser e viver a paz. Não há harmonia no mundo, não há desordem, apenas há o mundo. Abandonar certas concepções é abandonar a si. As coordenadas pelas quais nos orientamos e orientamos decisões são baseadas nestas regras sociais, que aos poucos nós mesmos sussurramos a nós. Abandona estas pré-concepções é uma forma de viver um modo de abandono.

Não há sabedoria no mundo. Não há nada. Apenas estamos presentes... se é que sabemos estar!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Dentes, Unhas e Amassos


Dentes, Unhas e Amassos

Dias cinzas em meio cinzas de cigarro
Um batom borrado, como teus olhos
O vinho ainda em nossos hálitos
Se misturando a saliva e ao tesão

Corpos em guerra, sem trégua
Dobrando-se e retorcendo-se
Torcendo para que não haja fim
Como os cortes das tuas unhas em mim

Puxo teus cabelos, prendo teu corpo
No meu, nos lábios, nos rasgos
O suor na testa, nas tetas, na relva
Na mata, paraíso, da tua buceta

Selvagem... como animais
Com o sexo mais que intenso
Com gritos, em vez de sussurros
Com tapas, em vez de acalento

E no ápice, no gozo, no mais prazer
Dentes encontram carnes
Carnes encontram unhas
Corpos na contramão

E as cinzas do cigarro
O vinho dos teus lábios
O cheiro impregnado, molhado
De corpos depravados

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Meia Luz, A Meio Blues


A Meia Luz, A Meio Blues

Um quarto, um corpo, um trago
De vinho ou cigarro
E as pequenas luzes do teu quarto
Imitando um céu estrelado

O descampado do teu corpo
Despertando instintos loucos
Quando minha boca encontra a tua
Quando puxo o cabelo da nuca

Nossos corpos como um carrossel
Girando entre teus quadris
Mais um beijo, um trago, um troco
Mais um jeito de gozar meio torto

Um quarto, um copo, um trago
Teus beijos, teus amassos
Tua boca, teus seios, teu mel
Teus pelos, teu cheiro, meu céu

sábado, 17 de dezembro de 2016

Entre Paraísos Artificiais e um Cotidiano Mundano


Entre Paraísos Artificiais e um Cotidiano Mundano

Eu costumo alimentar os gatos que vivem perto da minha rua. Eu confesso que me sinto levemente estranho, meio que mais humano. É como se eu me reconectasse com algo bem íntimo meu, meio esquecido e empoeirado. Depois de anos estudando teorias sobre subjetividade e construções políticas do eu, fica difícil olhar o mundo com outros olhos, outras formas mais leves e puras (se é que existe uma pureza).

Acontece que me sinto levemente mais humano, mais inteiro, como me reconectando com demais formas de vida, ancestralidade, sei lá. Aceitem meus segundos de piração! Bom, é como tomar um café em uma mercearia antiga, cheia de prateleiras velhas. É como olhar pela janela os pingos de chuva que caem do céu de encontro ao chão. É como observar as ondas que batem na pedra. São estes momentos singulares e bem simples, que não precisam de muita explicação, apenas estar ali presente!

Quando falo em paraísos artificiais, falo dos espaços coletivos entre companheiros de conspiração e amor. Aqueles espaços construídos intersubjetivamente mesmo, palavra grosso modo, e que compartilhamos idéias, às vezes comida e bebida... No fim das contas, dividimos um tempo de nossa existência para está ali presente com outros. Mas existem fatos cotidianos bem mundanos que nos jogam pra longe da necessidade da presença física de outros e suas regras sociais para nos sentirmos inteiros e parte de um coletivo chamado universo. Como uma risada gostosa depois de uma piada boba, como observar um animalzinho dormir, como o prazer no cheiro de terra molhada.

De certo, não sei explicar, só sentir! E sinto muito se você não entendeu, talvez não estejamos tão conectados, mas podemos tentar. Posso te contar sobre minha vida, você sobre a sua, podemos tomar um suco ou café, um vinho, talvez. Podemos estar presentes em algo que estamos fazendo e está presente tem sido algo extremamente raro. Estamos muito ludibriados pelos nossos paraísos artificiais, mas tão pouco atentos ao nosso cotidiano mundano.


Sei lá, vai ser isto tudo não faz sentido algo e é apenas mais um devaneio!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Daquilo Que Não Pode Ser Dito


Daquilo Que Não Pode Ser Dito

Ainda lembro daqueles velhos dias
Daquelas tardes quentes e noites frias
Das conversas secretas e perdidas
Das mentiras bobas que eu queria

Eu desejava teu sexo, teu calor, tua alma
Eu queria estar contigo, era preciso
Eu queria estar impregnado do teu ser
Teu cheiro, teu sabor, tua calma

Lembro das baladinhas românticas
Aquelas com versos bobos e clichês
Aquelas que não faziam inveja
Éramos melhor do que os casais da TV

Cada suspiro nosso era um livro
Cada olhar era como um verso
Cada sussurro proibido...
Éramos um namorar eterno

Mas a vida não é de todo lirismo
E a fantasia deu espaço ao concreto
Nos tornamos estranhos íntimos
Nos perdemos em meio ao tédio

sábado, 16 de julho de 2016

Mudanças


Mudanças

Não sei porque você foi mudar
Não sei porque foi se mudar, meu amor
As coisas já não são mais iguais
As coisas não são mais iguais meu amor

O que a gente aprende na escola
É só pra depois poder esquecer
Esquecer que nem tudo importa
E ficou muitas coisas entre eu e você

Tem dias que parecem noites
Tem noites que não tem mais fim
E também tem os fins de semana
Uns meio bons e outros bem ruins

Não sei porque você foi mudar
Não sei porque foi se mudar, meu amor
As coisas já não são mais iguais

As coisas não são mais iguais, meu amor

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um Dia Daqueles...


Um Dia Daqueles...


Há dias e dias. Hoje é um daqueles dias em que estou esgotado, mas não de mim. O mundo me fez transbordar. Transbordo tudo o que sou e que sofro. Não que para ser algo é preciso sofrimento, mas que, por algum motivo, somos ensinados a pensar sobre nosso lugar no mundo quando nos sentimos desamparados. Sendo assim, estou esgotado por tu que eu sou se esvazia agora, transborda pelos esgotos e frestas por onde vou. Tudo o que sou fica exposto em um momento simples em que escrevo. Tem sido difícil estar só comigo assim, eu sempre me procuro quando as coisas se esgotam. Gotejam pensamentos e sentimentos e que, de repente, me inundam. Afinal uma hora a gente se enche e é preciso esgotar, deixar ir, deixar fluir. É uma espécie de piração pessoal. Ou seria melhor dizer uma espécie de inspiração social? Bom, este é um dia daqueles em que nada faz sentido e eu estou sentido tudo. Que cada poro do meu ser acha palavras pra descrever algo. Que se eu não descansar minha cabeça sobre um escrito eu vou parar... possivelmente numa mesa de bar! Ah, estou farto de tantas coisas, estas nem cabem no papel, nem merecem ser ditas, só o que merece ser dito é que estou farto. Foram muitas gotas d'águas desaguando em mim. Inundou tudo e por dias e semanas me emudeceu. Mas agora estou aqui falando, não é? Dentre muitos dias e semanas, logo agora, não há conflitos. Estou inteiramente definido, recortado em um plano de fundo obscuro, mas previsível. Não é crise existencial, não é vida adulta, não é nenhum destes clichês dos cinemas autobiográficos. É apenas aquilo que nos faz seres humanos mais centrados, um carrossel de sentimentos loucos, que mais parecem uma montanha russa. É quando você se olha no espelho e se dá conta exatamente de nada, mesmo que haja muitos problemas na vida, que eles já tenham planos e algumas soluções em andamentos, mas você simplesmente olha pro espelho e não entende nada. Você se dá conta que nem se reconhece mais e rola aquele sentimento "quem diabos é vocês aí na minha frente?" e "de onde saiu este cabelo branco?", enfim... É aquele dia que você tem vontade de dizer "já chega c******, é hoje que vou me mudar, sumir, partir, montar uma banda de punk rock e ser hippie!". Você se sente esgotado e cheio, cansado e criativo. Você simplesmente está ali: frente a frente consigo mesmo e, faz tanto tempo que isso não acontece mais, que você não sabe o que fazer... se convida pra tomar um chá ou sair pra beber... Tudo isso porque hoje é um dia daqueles...