domingo, 27 de janeiro de 2013

Degradê


Degradê

Ao menos sonhar
Mais que tudo
É preciso
Viver

Ao menos amar
Mais que tudo
É preciso
Manter

Ao menos criar
Mais que tudo
É preciso
Regar

Ao menos fingir
Mais que tudo
É preciso
Ser

Ao menos, pelo menos
Mais uma vez, apenas
Deixe-se partir e chegar
Feliz

E o Tempo do Mundo


E o Tempo do Mundo

Eu era pura timidez
Olhares esquivos
Voz sem sentido

Eu era pura fluidez
Movimentos furtivos
Toque contido

Mas, então, veio a alvorada
E o tempo do mundo
E varreu meu antigo eu
Me tornou profundo

Eu era pura solidez
Gestos evasivos
Modos fingidos

Eu era pura rigidez
Fazeres indecisos
Pensar perdido

Mas, então, veio a madrugada
E o tempo do mundo
E varreu meu antigo eu
E agora eu me procuro

Café e Orvalho


Café e Orvalho

O café amargo nos lábios
O orvalho da manhã
O mundo tão parado
E algumas poesias vãs

O dia vem raiando
Espantando toda sombra
Toda sombra de dúvida
De que o dia vai nascer

As nuvens se movem
Pra longe de mim
A lua se esconde além
E a insônia sem fim

Até que ponto benção
Até que ponto maldição
Versar poemas frágeis
No frescor da manhã?

O lençol que não me aquece
A ferida que não dói
O retrato sempre estático
E o sentimento que não foi

Há Quase 10 anos

Há Quase 10 anos

As promessas eram tantas
Mundo que cabia em uma mão
Os mistérios eram claros
E, ainda, tão raros

Cada dia uma nova descoberta
Um novo por do sol
Uma nova lua cheia
E o contraponto de um farol

As ondas se moviam
Cavalgando as rochas
Velhas escadarias
Algumas lendas e fantasias

A descoberta do beijo
O toque quente da pele
O torpor e uns goles
O devaneio de corações moles

Eram raros os dias tristes
Eram ricos os dias felizes
E era o tempo de florescer a pele
E o desfazer de uma bruma leve

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Qual Dor É Passageira?


Qual Dor É Passageira?

Eu não me esqueci
Eu conheço e reconheço meus erros
Eu não vim mentir
Apenas sou chegado ao desapego

Não posso me sacrificar
Em uma culpa tão singular
Perdida ao vento no primeiro
Momento em que vento soprar

Não é questão de opinião
Apenas gosto de mensurar
Aquilo que vale a pena ser sofrido
E aquilo que logo deve passar... (E mudar)

Mágoa, raiva ou rancor
Não é preciso tanta assim
Pra me fazer repensar e pensar
Pra sentir, fingir ou fugir (talvez)

Apenas gosto das horas
Horas de fingir
Horas de fugir
Horas de sentir (o adeus?)

Eu não me esqueci
Eu conheço e reconheço meus erros
Eu não vim mentir
Apenas sou chegado ao desapego

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Fio da Espada


O Fio da Espada

Eu queria ser uma espada, uma lâmina
Uma lâmina afiada
Tão afiada, capaz de cortar bambu
E eu cortava bambu, quando sonhava cortar madeira
Eu cortava madeira, quando sonhava cortar ossos
Eu cortava ossos, quando sonhava cortar almas
Minha lâmina nunca estava afiada o bastante
Eu sonhava rasgar, romper minha realidade
Cortas os céus e mares
Onde eu encontraria pedra capaz de amolar minha espada?
Tal pedra existiria no mundo em que vivo?
E eu sonhava...
Lâmina, onde perdera teu fio?
No bambu, na madeira, nos ossos ou na alma?
Onde amolará teu fio que não terce, mas retalha?
Fora as almas que fatiara ou tua própria que fizera perder o fio?
É preciso amolar a espada, tua alma, se desejas trespassar o mundo!
Resta saber: é a lâmina que amola a alma ou a alma que amola a lâmina?
Onde forjará teu novo fio?

sábado, 25 de agosto de 2012

Deleite


Deleite

O quintal mais florido e harmônico de minha infância. A casinha mais rústica que vi em minha cidade. Os gestos mais gentis e bobos que alguém poderia lhe ofertar. Assim eram nossos tempos. Um quintal, que mais parecia sair dos mais deliciosos contos de fadas. Um poço velho, duas senhoras idosas distintas, uma mais alta e magra e uma mais gordinha e baixa, e alguns gatos soltos pelo local.

Lembro-me de creditar a elas o papel de velhas bruxas, mas bruxas boazinhas, daquelas que cuida de seus vizinhos. Era de se pensar, pois viviam para si, bem reservadas e curiosamente bondosas como nunca se viu.

Com o tempo estas idéias me fugiram a lembrança. Mas o mundo me fez repensar o mundo. Então eu pensei:

A mais baixinha parecia ser a bruxinha que fazia a mais magra e irritadiça ser boazinha também. Descobri, tempos depois, entre as papoulas do nosso quintal, que fazia cerca com cerca com o delas, que ela era como uma mãe a alguém. Muito tempo depois, somente muito tempo depois, depois de não ter mais tempo de conversar com ela sobre, descobri que ela foi como mãe de muitos!

Realmente, era alguém da magia, que criará muitos em segredo, ao menos segredos encantados, pra mim! Era a magia do amor! E era místico pra mim saber nos últimos segundos antes do adeus, que eu conhecia alguém tão fantástica, nas duas acepções do termo!

Foi encantado descobrir suas superstições de guardar um pote de barro cheio de sal grosso contra os maus olhados. Foi encantado pra mim descobrir que nos dias de sexta-feira ela delicadamente depositava algumas gotas de perfume na água de seu banho, pois era um dia diferente dos demais, diferente dos dias comum e requeria banhar-se assim.

Era a senhorinha mais doce que conheci e que me confundia com meu pai, a quem chamava de namorador, a quem teve muitos netos, sem nunca ter um filho. A quem devoto hoje um imenso amor maior do que antes, afinal, eu também fui um dos muitos netos!