domingo, 19 de maio de 2013

Assobios da Chuva


Assobios da Chuva

As gotas de chuva caem
De encontro ao chão
Molham minha pele pálida
Rompem a solidão

Fervo um pouco de café
Com o cheiro de terra molhada
Ainda há nuvens lá em cima
E o ar cinzento da madrugada

Na vitrola, Bob Dylan
Em uma língua que não entendo
Vão-se notas e versos
Pensamento se movendo

Todos dormem em paz
E eu degusto café
Relembrando velhas histórias
Coisas de que já não tenho fé

E as gotas caem
Batem no portão
Não tocam meus olhos
Mas molham meu coração

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Corpo Egoísta


Corpo Egoísta

Meu corpo grita
Minha pele se retorce
Minha saliva escorre
Meus olhos dilatam

Não se trata de drogas
Se trata de faltas
De fatos, de ódio
E de amor

Frases românticas
Ânsia de vômito
Músicas bonitas
Eu fico tonto

Dane-se seu otimismo
Danem-se as causas ambientais
Eu preciso sentir
Eu preciso mais de mim

Todo sentido e beleza se esvaem
O que eu preciso é real
Quente e envolvente
Ah, viver é tão impossível!

O que eu quero, quero agora
Não em outros tempos
Meu corpo grita
Meu corpo sente...

Danem-se os rituais
Danem-se flores e chocolate
Vinho e suor
Até o sol se por (se opor)

domingo, 5 de maio de 2013

A Vida em Piloto Automático


A Vida em Piloto Automático

Datas para entrega de relatório. Data de supervisão. Datas no calendário.
Horários de atendimentos. Remarcar. Ausência. Ligações. Burocracias.
Artigos, livros, fichamentos, prontuários... Cadê meu caderno de anotações?
Atrasos, insônia, ressentimento. Despertador!
Corre-corre. “Não vai dar tempo!”. Acabou...
Frustração!

Às vezes perdido no tempo, meditando sob o ponteiro do relógio. Dançando na ponta da agulha, no fio da navalha. Perdido de mim mesmo boa parte do momento, do instante, já foi!

Vivendo a vida em piloto automático, tentando dar tempo ao tempo, tentando dar conta dos momentos, situações, faculdade, amigos, família, livros, trabalho, ufa! Namorada, cadê?

E o que é preciso fazer?
Suspender a vida!

Parar tudo: não pensar, não sentir, não correr, nada! Pura e simplesmente, apenas, respirar. Música como pano de fundo, deitar o corpo ao chão e deixar o universo se desintegrar na vertigem do fim dos tempos... Devaneios de respiração!

Quando paramos, sentimos o mundo girar. Suspendemos nosso movimento e podemos então ver o que não se via, pois acompanhávamos o mundo em seu fluxo incessante, enxergamos o invisível.

Paralaxe de si pra si por si consigo!

As vozes do mundo se calam! Não há uma só palavra, não há verbo, apenas respiração.
Percebemos que naquele fluxo da vida não estávamos no comando do barco, mas sim as metas, datas, horários, trabalhos, outros. Estes dominavam nossos fazeres (responsáveis). 
Mas onde sou eu?

A Vida em Piloto Automático!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tempo Estático


Tempo Estático

A poesia que existe em mim está de férias
Feridas abertas rasgam o papel
Passam tempos buscando sentidos
Se os tiro de dentro ou de fora de mim

Em parte, se é que se pode dizer assim
Sinto-me vazio e vagando pensamentos
Pesados presságios de uma alegria que nunca foi
Folhas que caem secas dum galho

Ciclos da vida em fim de tarde
Tardam nuvens que se perdem cinzas
Se é que se perdem apenas de mim
Mistérios que me tornam longe, distante

Por onde andará aquela antiga paixão
Para viver intensamente cada migalha de tempo?
Tempestade de sentidos e devaneios que me abandonam
Abatido como um ponteiro de relógio sem movimento

Copo Meio Cheio


Copo Meio Cheio

Horizonte pálido, e nós
Vivendo um dia a cada instante
Tudo permanece em seu lugar
Repetidamente e incessante

Os louros de outrora
Hoje são insignificantes
O café quente esfria
Diplomas e títulos na estante

Mas o mundo não parece parar
A ilusão da mudança
O mundo não cansa de girar
Como um filme, meras lembranças

Melancolia de meio de vida
Meio da rua e esquina
Bares fechados, entediados
Sensações que não se ensina

Sempre haverá um amanhã
E tudo permanecerá normal
O sol já vem amanhecendo
Iluminando meu tédio monumental

terça-feira, 30 de abril de 2013

Quase Um Cordel (ou Pena que eu Não Levo Jeito pra Cordel)


Quase Um Cordel (ou Pena que Eu Não Levo Jeito pra Cordel)

Meus olhos choram
Choro de retirante
Choro de terra ferida
Choro dos desinteressantes

Meu peito sonha
Sonho de chuva fresca
Sonho de molhar a terra
Sonho de fim de seca

Meu coração canta
Canto de passarinho
Canto no sertão e sabiá
Canto de uva e de vinho

Meus olhos chovem
Chuva de lágrimas de infância
Chuva de banho de bica
Chuva de inverno e abundância

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Paradoxo da Poesia

Paradoxo da Poesia

Há muito tempo eu busco fazer poesias simples, pequenas, delicadas, mas nada me parece caber em poucas palavras. Sinto-me inclinado aos excessos. Faço rimas e prosas, mas não alcanço a perfeita sintonia que busco. Exagero nas metáforas, nada parece fazer sentido. Palavras bonitas jogadas aleatoriamente, como lance de dados. Ontem à noite eu tive um sonho, e dele, por fim, veio-me a inspiração: Não dizer absolutamente nada, apenas o tempo de um suspiro, fechar os olhos, após o encontro de teus olhos, beijar-te e dizer “eu te amo!”. Nada mais precisará fazer sentido, ser dito, rimar, as frases poderão ser clichê, mas o sentimento que vai tamborilar em nossos peitos serão a única poesia sinfônica a ser ouvida no silencio de nossos lábios...

Droga, fiz de novo, os excessos das palavras!